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segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Paraíso

Imagem: Google

Publicado por Sostenes Lima
Dizem os fundamentalistas… Ah! Você não sabe quem são eles. Vou explicar. Fundamentalistas são pessoas muito religiosas (se católicas, protestantes, muçulmanas ou judias pouco importa, pois todas pensam do mesmo jeito). Elas pensam que Deus é dono de um jornal. Não só dono como também redator-chefe, repórter e linotipista. Nesse jornal, que se chama O Correio Divino, tudo sai diretamente da pena de Deus, os editoriais, as reportagens, os artigos, os obituários, com a devida autenticação dos carimbos do cartório dos anjos. Por essa razão, tudo o que é ali publicado tem de ser acreditado tintim por tintim, nos seus mínimos detalhes: Deus não espalha boatos falsos, só para aumentar a venda. O Correio Divino publica só o que aconteceu de verdade, não importa quão fantástico possa parecer; para Deus tudo é possível, como o portento de Josué, que fez parar o Sol no meio do céu, e o do profeta Jonas, engolido e vomitado por um peixe, depois de gozar de sua hospitalidade visceral por três dias.
Pois eles, baseados no tal jornal, afirmam que Deus plantou um jardim maravilhoso há muito tempo, quase 6 mil anos, muito longe, lá pelas bandas do Iraque. Por um desentendimento entre Deus, o casal de jardineiros e uma cobra, Deus expulsou os dois de lá e fechou a porta do Paraíso, que nunca mais foi achado. Por lá, hoje, só se acha areia, guerra e petróleo, e dizem os entendidos que foi isso que restou do jardim de Deus, transformado em óleo preto por artes do Demo.
Acho um desperdício. Se o que Deus queria era só plantar um paraisinho, por que gastar tempo e energia fazendo um mundo tão grande, tão bonito, o Rio Amazonas, o Himalaia, o mar, as praias com coqueiros, os riachinhos nas montanhas, o Pantanal e o Lago de Como, que é onde estou agora? Teria sido muito mais lógico fazer um mundo do tamanho do jardim, seria mais fácil tomar conta, e assim tudo caberia num asteróide, como aquele onde morava o Pequeno Príncipe.
Claro que isso tudo que falei é brincadeira, pois não acredito em nada disso. Eu leio os textos sagrados como quem lê poesia e não como quem lê jornal. Prefiro pensar que Deus é poeta a imaginá-lo como dono de um jornal. Existirá ofensa maior para um poeta que perguntar se o seu poema é reportagem?
Sendo esse o caso, posso bem sonhar que Deus não fez um Paraíso só, ele fez muitos, tantos quantas são as suas criaturas, para cada uma delas um Paraíso diferente, e os espalhou pelo mundo inteiro. Em volta de cada pessoa existe um Paraíso diferente do seu, como se fosse uma bolha transparente. Você já viu?
Não. Você nunca viu. Sugiro consultar um oculista, alguma coisa deve estar errada com os seus olhos, você não está vendo direito. Diagnóstico sugerido pelos mesmos poemas sagrados, que atestam que o primeiro dano do pecado foi estragar nossa visão. Com o que concorda Alberto Caeiro, oftalmologista de renome, que diz que não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. O mundo está cheio de cegos com vista perfeita.
Quem oferece colírios curativos para olhos cegos (muito embora só sejam cegos para o belo, tendo vista muito boa para o feio!) é um místico medieval, Ângelo Silésio, que escreveu num dos seus poemas: Quem, dentro de si mesmo, um Paraíso não for capaz de encontrar, não será capaz também de, um dia, nele entrar…
Não quero fazer inveja a ninguém, mas eu estou no Paraíso, aqui na Itália, num castelo, às margens do Lago de Como, cercado de montanhas, que eu vejo agora através da janela do meu quarto enquanto escrevo. São três e meia da tarde, o Sol brilha forte, o castelo está circundado de parques, mais de dez quilômetros de caminhos pelos bosques de coníferas altíssimas, ninféias, fontes com repuxos, o cheiro da resina dos pinheiros vai até o fundo da alma, o silêncio só é quebrado pelo apito dos barcos lá longe e pelo repicar do sino da igreja que acabou de bater. Bateu também dentro de mim uma saudade não sei de quê, eu sou uma saudade imensa cercada de carne por todos os lados…
Fiquei imaginando Deus, andando pelos caminhos onde eu andei, no vento fresco da tarde, do jeitinho como diz o texto sagrado. Ele deve ter sentido a mesma coisa que eu senti: quanto maior era a beleza, maior também era a tristeza. A beleza, em solidão, é sempre triste. Beleza solitária dá vontade de chorar. Para ser boa, a beleza exige, pelo menos, dois pares de olhos tranquilos se olhando, dois pares de mãos amigas brincando, e bocas de voz mansa sussurrando…
Acho que foi naquele momento, quando Deus sentiu tristeza ao ver a beleza, que ele entendeu por que Adão estava tão deprimido: deuses e homens são muito parecidos… E foi então que ele aprendeu – pois Deus também aprende – que não é bom que o homem fique só. Fez dormir Adão, e ordenou que aquilo que ele sonhasse, aquilo mesmo acontecesse. E ele sonhou com dois olhos tranquilos, duas mãos brincalhonas, e uma voz mansa… E assim nasceu a mulher, o sonho mais belo do homem, para trazer alegria ao Paraíso…
Fico mesmo é com dó de Deus. Os entendidos, que privam de sua vida íntima, teólogos, clérigos, papas e cardeais, dizem que não devo me preocupar, pois Ele está sempre em boa companhia, tem mãe puríssima, que nasceu sem pecado. É um filho obedientíssimo, que sempre faz o que lhe é mandado. Dizem que isso basta para a felicidade de Deus.
Discordo. Sem o olhar dos olhos apaixonados, sem o toque das mãos brincalhonas, sem o som da voz mansa, nem Deus pode se sentir feliz.
Essa é uma felicidade possível aos homens. Mas, e Deus? Andando sozinho pelo jardim. Coitado! Tanta beleza. Tanta tristeza…
15/8/93
______________________
* Texto extraído de: Rubem Alves. Teologia do cotidiano. São Paulo: Olhos D’água, 1994. p. 62-65.


domingo, 7 de abril de 2013

O Blog e a Produção Teológica


Por Tiago Santos

Robusta, atraente
Perigosa, presente
Universo conexo
Mundo sem nexo
É a rede, é a rede.

A internet é o grande fenômeno da comunicação e da ligação de pessoas do século presente e do anterior. Todas as grandes mídias de comunicação – que revolucionaram o século XX – o telefone, a televisão, a música, o cinema, foram redefinidos e remodelados pela internet. A internet proveu conexão de dados e de pessoas, causando uma transformação sem precedentes na comunicação. Dados recentes do Internet World Stats indicam que, no ano de 2011, mais de 2,2 bilhões2 de pessoas no mundo estavam conectadas na internet – o que representa 1/3 de toda população do planeta.  Apenas um desses sites de relacionamento, o “facebook”, já agrega mais de 800 milhões de pessoas no mundo todo. O Brasil ocupa o terceiro lugar em números absolutos de usuários desta famosa rede social, com mais 51 milhões de pessoas conectadas.3

O famoso sistema “world wide web”, ou www, trouxe consigo uma infinitude de possibilidades que transformaram a rotina e até mesmo o vocabulário de milhões de pessoas. Ainda que afirmar isso soe como um clichê, é inegável a transformação que a internet causou na vida do homem de nossos dias – mudança tal que quase não podemos nos ver sem ela. Para alguns, quando “cai” a internet, “cai” o mundo. Algumas grandes empresas que atuam na internet como  “youtube”, “google”, “twitter”, “skype”, “facebook” se tornaram tão importantes na vida das pessoas que têm seu nome confundido com o serviço que oferecem. Hoje, tudo se acha na internet e tudo se busca na internet: informação, notícia, entretenimento, relacionamentos, comunicação, arte, e muitas outras coisas. A internet faz parte da vida do homem do século XXI.

A igreja cristã entrou na onda da internet rapidamente. Em particular, entre as igrejas de confissão evangélica, a internet promoveu avanços importantes. Ministérios passaram a ter maior visibilidade e o conteúdo doutrinário ganhou um novo veículo, podendo ser acessado por milhares e milhares de pessoas que até então desconheciam totalmente aquele ministério, igreja ou organização. Ainda houve ganhos na ampliação de contatos, na comunicação e na promoção de ideias e conteúdo.

No Brasil, a internet tem possibilitado às igrejas e organizações cristãs muitas oportunidades de sociabilização, transmissão de conteúdo, reflexão teológica e tratamento de assuntos relevantes para a igreja no contexto nacional. A fé cristã, que é a fé da Palavra, ganhou cores, imagens e apresentação atraente na internet. Sites, blogs, páginas de twitter, youtube e facebook se tornaram a porta de entrada para introdução e debate nos grandes e importantes temas da teologia cristã. As vantagens são muitas, e outros cooperadores deste volume certamente demonstrarão o valor do uso correto desta poderosíssima ferramenta como meio para reflexão cristã.

Procurarei oferecer aqui uma palavra de cautela, considerando o ambiente pós-moderno em que vivemos e alguns desafios que a exposição da internet pode gerar. Ao fim, buscarei oferecer alguns conselhos para o uso saudável e edificante da internet e de blog que tenham o fim de promover conteúdo teológico.

INTERNET: O LABIRINTO DE ECO
Se a internet representa uma grande revolução no mundo da comunicação e da conectividade, ela também é um espelho do mundo das ideias que marcam nosso tempo. A internet é, possivelmente, a representação mais fiel da principal visão de mundo de nossos dias: o pós-modernismo.4

O escritor italiano Umberto Eco5 foi capaz de captar o espírito de nossos tempos com uma percepção muito aguda. Em sua já famosa obra “O Nome da Rosa”, ele sintetiza de forma criativa e inteligente a cultura pós-moderna ocidental, toda arquitetada no conhecimento enciclopédico, mas incapaz de sistematizar a verdade.6Eco situa seu premiado romance policial no ano de 1327, em um mosteiro beneditino, localizado nos Alpes marítimos do norte italiano, numa abadia obscura, distante, cinzenta e misteriosa onde encontrava-se a “maior biblioteca da cristandade”.

A trama gira em torno da investigação de misteriosos assassinatos na abadia, conduzida pelo frei franciscano Guilherme de Baskerville e seu auxiliar, o noviço alemão Adso de Melk, que foram à abadia para participar de uma conferência que aconteceria entre franciscanos e beneditinos. A personagem principal da obra de Eco, todavia, era mesmo a “biblioteca”. Organizada num verdadeiro labirinto – tão complexo que poderia deixar quem se aventurasse entrar nele totalmente perdido – o seu acúmulo impressionante de conhecimento era tão confuso como o próprio labirinto – sua acessibilidade não significava coesão e sentido: “A biblioteca é um grande labirinto, signo do labirinto do mundo. Entras e não sabes se sairás”.7

O ambiente cultural em que vivemos é exatamente como a biblioteca de Eco e o universo fragmentado e cheio de caminhos da internet representa muito bem esta mentalidade. O Google e o Wikipédia, por exemplo, realizaram os sonhos mais ambiciosos que as famosas enciclopédias do passado ansiavam, com seus vastos e volumosos tomos: o de reunir num só lugar uma infinidade de conhecimento. Mas essa abundância de informação não representou, necessariamente, profundidade intelectual para a humanidade. O Google deixou as pessoas mais sabidas, mas não mais inteligentes. Hoje é possível conhecer os assuntos mais variados, mas esse conhecimento não tem redundado em formação. Hoje estamos a um “clique” de praticamente qualquer informação que desejarmos acessar, mas ficamos perdidos diante deste conhecimento. Nesses tempos em que se tem tanto acesso a informação, temos também uma séria crise de formação. Adler & Vand Doren foram precisos em sua observação quando disseram que “a informação de fatos antes desconhecidos sem o entendimento deles pode promover uma mudança quantitativa em nossa mente, mas não qualitativa. A mente permanece essencialmente como estava antes”.8

E O QUE A TEOLOGIA TEM A VER COM ISSO?
A informação teológica está tão disponível como nunca esteve antes. Uma rápida pesquisa no “Google” que envolva as palavras “blog” e “teologia” resultará num número extraordinário de blogs e sites que oferecem um amplo escopo doutrinário, com reflexões, textos elaborados, respostas, fórmulas, declarações, afirmações e ensinos, polêmicas, todos pretendendo servir de orientação certeira para o leitor que procura alguma direção ou informação sobre qualquer tema teológico. O ponto é que esses vários sites oferecem direções e ensinos tão diferentes sobre os temas pesquisados quanto dista o “oriente do ocidente”, levando o leitor a várias bifurcações e tornando sua busca pela verdade uma tarefa extenuante. Como a biblioteca de Eco, a internet pode ser um terreno escorregadio, “insondável como a verdade que acolhe, enganosa como a mentira que encerra. Labirinto espiritual é também labirinto terreno. Poderíeis entrar e poderíeis não sair ”.9

Algum blog teológico já deve ter afirmado em algum lugar na internet que “a teologia é a rainha de todas as ciências”.10 Pois bem – embora esta afirmação seja verdadeira, o que ela representa? Temos de compreender bem o que é a teologia e qual o ambiente apropriado para que ela seja gestada, desenvolvida e promovida. Para determinarmos a utilidade do blog para o ensino teológico, devemos ter em mente uma definição básica de teologia. Podemos definir a teologia como sendo o estudo de Deus, de seu ser, seus atributos divinos e pessoais e de sua relação com o homem e as coisas criadas, conforme a revelação que Ele fez nas Escrituras Sagradas.

ÉTICA NA INTERNET: OFF LINE
Uma das questões mais urgentes e importantes que o escritor de blogs e texto na internet precisa atentar é a ética.11 Infelizmente, sua importância tem sido enormemente negligenciada em muitos meios onde se publica textos teológicos. O comportamento antiético na internet é espantoso. Atrás do anonimato ou mesmo de uma projeção falsa de imagem que a internet favorece, discussões sem sentido acontecem, troca de ofensas, uso indevido de material protegido por direitos autorais, enfim, é preciso resgatar o procedimento ético também na “persona” virtual.

Outro cuidado que é preciso ter com o uso da internet e, particularmente do blog, para a discussão teológica é com o acesso. Não se sabe quem está lendo os textos ou acompanhando as discussões em torno de determinado tema. Muitas vezes, um assunto complexo gera polêmicas e debates acirrados e isso fica exposto diante de pessoas que não têm compromisso com a fé cristã, ou aos inimigos da fé ou, ainda pior, aos olhos de pequeninos na fé ou neófitos – o Senhor Jesus Cristo faz um severo alerta contra aqueles que fazem tropeçar um de seus pequeninos (Mc 9.42). Na cristandade primitiva, havia uma prática chamada disciplina arcani, que era o costume de manter o conhecimento de doutrinas mais difíceis da fé cristã e o debate acerca delas, distante dos não cristãos e até mesmo dos novos na fé, com o propósito de preservar-lhes de escândalos e não confundir-lhes a mente.

Ainda é válido estabelecer a diferença entre “jornalismo teológico”  e “formação teológica”.12 O fato de um determinado tema doutrinário ser publicado em uma página de internet não torna seu autor uma autoridade no assunto. É alarmante o uso da internet por blogueiros que lidam com temas teológicos complexos com uma redação jornalística, mas sem expertise e domínio da matéria. O que se vê em muitos casos é o tratamento de assuntos difíceis e densos de modo superficial – pois a internet, e, por conseguinte, os blogs, exigem linguagem breve, dinâmica e vocabulário simplificado – mas isso normalmente resulta em lacunas e simplificações que podem confundir o leitor e não lhe oferecer a amplitude necessária para produzir suas próprias conclusões com base nas Escrituras e na teologia histórica.

UMA LONGA CONEXÃO
A fé cristã é um contraponto à caótica visão de mundo do pós-modernismo. Ela é coesa, coerente, histórica, reta, faz afirmação da verdade e é revelada. Ela tem sido transmitida pelo fenômeno do kerygma, da pregação – e a chamo de fenômeno porque sua entrega e aplicação é obra do Espírito Santo de Deus – e também pela prática da instrução pastoral, do ensino na igreja e às famílias cristãs, a catequese.

O puritano Thomas Watson (1620-1686) abre o seu “Body of divinity”, uma obra que se tornou um clássico na importante obra de instruir o cristão em doutrinas importantes das Escrituras, com a seguinte afirmação: “É de suma importância que o cristão seja instruído no fundamento da religião. É o dever dos cristãos se firmarem e se fundamentarem na doutrina da fé”.

Baseando sua obra no Breve Catecismo de Westminster, Watson sintetizou, com a precisão típica dos puritanos de seu período, a essência de toda instrução teológica: “Firmar-se e fundamentar-se na doutrina e fé”. Partindo dessa premissa, ele passa a demonstrar a importância da instrução teológica para uma vida cristã madura e uma fé robusta, capaz de resistir às provas do falso ensino e capaz de levar o cristão ao crescimento e firmeza na fé.

Há muita sabedoria na instrução de Watson. Em suas palavras, ele segue uma tradição antiga e bem sucedida que se consolidou como o método mais eficiente de transmissão de instrução teológica para o povo de Deus: a catequese. Nesse método, um corpo básico da doutrina cristã é transmitido pelo pastor ao rebanho, através de perguntas bem elaboradas e respostas com ampla fundamentação bíblica.  A base desse corpo teológico, via de regra, era o Credo dos Apóstolos, a Oração do Senhor, e os Dez Mandamentos. O pastor visitava os fiéis, fortalecendo sua fé por meio de exortações à devoção e incentivando-os se agarrar à mensagem das Escrituras.

A prática da catequese ganhou novo vigor a partir da Reforma do século XVI. A necessidade de instruir na fé os cristãos levou os mestres da igreja a produzir catecismos e confissões de fé que formaram, naquele período, um dos corpos mais ricos de doutrina cristã. Um exemplo da prática bem sucedida da catequese se viu em Richard Baxter, um ministro puritano contemporâneo de Thomas Watson, que foi um grande mestre do trabalho pastoral catequético. Durante seu ministério na pequena vila de Kiddermister, no interior da Inglaterra, mudanças profundas aconteceram por causa do zelo pastoral de Baxter. Diz-se que quando de sua chegada à cidade, “podia-se contar nos dedos de uma mão os que eram realmente piedosos, mas, ao fim de seu ministério naquela vila que tinha pouco mais de 3.000 habitantes, não havia uma única casa onde não houvesse crentes. Conta-se que, quando um viajante passava pelas ruas da cidade num certo horário do dia, podia-se ouvir de longe o canto de louvor que se proferia nas casas daquela vila”.13 Em sua obra prima sobre a atividade pastoral, Baxter dá especial atenção ao trabalho catequético do pastor, dizendo o seguinte:

Nossa preocupação pastoral deve ser com todo o rebanho, com toda a comunidade. (…). Temos de nos dedicar aos indivíduos da igreja; precisamos conhecer cada pessoa que está a nosso cargo, pois como poderemos olhar por elas se não as conhecermos? (…). Nosso trabalho consiste em: confirmação, progresso, preservação, restauração e consolação.14

Na prática pastoral de Baxter, ele tinha o propósito de “ensinar os pontos fundamentais da doutrina, para a edificação do cristão e sua progressão na fé e na verdade”.15

Por séculos, a teologia tem sido desenvolvida na igreja através das demandas pastorais e do estudo aplicado e disciplinado das Escrituras e o conhecimento teológico tem sido disseminado para os cristãos através da pregação e de uma catequese pastoral intencional e dirigida às necessidades do povo de Deus. Nossa geração precisa relembrar desse velho e eficiente princípio. Ainda que a internet e o blog possam, efetivamente, oferecer uma boa palavra ao leitor ou ouvinte, a instrução sólida será aquela que é rotineira, pastoral, dominical, que envolve investimento de tempo e de atenção aos problemas reais que as pessoas experimentam. As pessoas precisam ser pastoreadas e os blogs não poderão fazer isso por elas. O pastor virtual terá uma ovelha virtual.

A COMUNIDADE DA FÉ COMO O ESPAÇO DA TEOLOGIA
A teologia cristã é produzida na igreja. Ela é fruto de demandas pastorais. Sem o povo de Deus, sem os dilemas humanos da dramática peregrinação cristã, sem batalhas contra o pecado, lutas com as angustias e sofrimentos da vida, crises existenciais, relacionamentos – conjugais, fraternais, familiares -, esforço pela santidade, enfim, sem as demandas pastorais não há produção teológica, não se pode falar em produção teológica.

Para citar um único exemplo de como a produção teológica tem sido fruto de grandes demandas pastorais, podemos considerar uma das obras teológicas mais importantes de todos os tempos: As Institutas de João Calvino. Estas, segundo o próprio Calvino, era o que ele considerava como a principal apresentação oficial de seu entendimento da fé cristã. Ele a dividiu em 4 livros, os quais tratam da (I) Doutrina de Deus – a Criação e a Providência;  (II) dos fundamentos da doutrina da redenção, a pessoa e obra do Redentor Jesus Cristo; (III) o uso da redenção em relação ao indivíduo, incluindo as análises das doutrinas da fé, da regeneração, da oração, da predestinação e da justificação e (IV) o livro que trata da Igreja, a comunidade redimida, assim como a pregação, a Ceia do Senhor e o Batismo.16 Quando Calvino justificou as razões que o motivaram a preparar as Institutas, ele afirmou:

 Por causa dos muitos fiéis e não poucos santos que estavam sendo queimados (...) Pareceu-me que, a menos que me opusesse com o máximo de minhas habilidades, meu silêncio não poderia ser inocentado da acusação de covardia e traição. Foi essa a consideração que me induziu a publicar as minhas Institutas da Religião Cristã (...) Elas não foram publicadas por nenhum outro motivo, senão aquele de fazer com que os homens soubessem qual a fé dos homens que vi sendo tão vil e cruelmente caluniados.17
A motivação de Calvino para produzir teologia era o seu cuidado pastoral, era seu desejo de nutrir e sustentar a Igreja, ensinando com precisão todo o conselho de Deus; era seu desejo de encorajar os mártires e com isso ser fiel ao seu chamamento e glorificar a Deus.

Esse exemplo deve nos levar a entender que, conquanto o blog ou o site de teologia possam instigar o interesse do leitor, a boa teologia – aquela que é prática e útil para a vida - será fruto da consideração bíblica sobre demandas verdadeiras, problemas reais, lidas do cotidiano e as questões da vida. O espaço virtual não será capaz de contemplar essas situações, nem de oferecer acompanhamento e atenção suficientes a tais questões.

DA IGREJA PARA FORA: ALGUNS CRITÉRIOS PARA COMBINAR BLOG E TEOLOGIA
Volto agora à palavra do início deste texto: a internet oferece sim vantagens para a reflexão teológica. Fazemos bem em fazer uso desta ferramenta tão poderosa. Mas precisamos de balizas, de critérios, de sabedoria e discernimento se queremos oferecer um conteúdo que seja abençoador e edificante ao povo de Deus. Nesta parte final, quero propor 15 conselhos para o blogueiro cristão usar como princípio para seus textos e postagens:

1.    O blogueiro precisa estar consciente do ambiente perigoso e sem nexo que é a internet e, assim, ser muito cuidadoso quanto à seleção de conteúdo e a linguagem escolhida para apresentá-lo aos seus leitores.
2.    A produção de reflexões teológicas deve ser derivada e motivada pelo amor e zelo pela Palavra de Deus. Ele deve trabalhar seu texto para levá-lo de volta às Escrituras, instigando-o a desenvolver um espírito bereano.
3.    A boa teologia sempre refletirá o ensino das Escrituras em resposta às demandas e preocupações pastorais e ministeriais.
4.     Reflexão teológica deve ser parte do trabalho ministerial e não um fim em si mesmo.
5.    O blogueiro cristão deve se lembrar de que a fé cristã não começou em sua própria geração. Ele deve buscar respaldo no longo e antigo séquito de fieis seguidores de Cristo ao longo da história.
6.    Ele deve ter uma postura humilde e procurar trabalhar no âmbito de seus conhecimentos e experiência ministerial. (Pv 16.18)
7.    O blogueiro cristão deve examinar seu próprio coração e discernir a motivação que o leva a produzir seu texto. Ele é resultado de que preocupação? O que o levou a produzir esta reflexão? Que propósito almeja?
8.    O blogueiro cristão deve estar ligado a uma igreja local e ter comunhão com ela. Dificilmente ele terá algo a oferecer para o leitor se ele mesmo não for parte da comunidade visível de Deus na terra, a igreja.
9.    O blogueiro cristão deve ser uma pessoa madura na fé, que produz seus textos de forma equilibrada, consciente e cuidadosa, buscando sempre a edificação do leitor.
10.    O blogueiro cristão deve conhecer bem a teologia. Há muitos “teólogos de internet”, que obtiveram seu conhecimento doutrinário através da leitura da… internet. Sem o aprofundamento que a vida de igreja e a academia cristã oferecem, não é prudente se aventurar a produzir um blog de teologia.
11.    O blogueiro cristão deve ser muito cuidadoso com a ética, especialmente no tratamento a outro irmão na fé. Deve lidar com o leitor virtual como se estivesse face a face com ele.
12.    O blogueiro cristão deve refletir os valores da fé e da ética cristã em seus textos, procurando oferecer uma palavra boa, graciosa, verdadeira, firme e bíblica.
13.    O blogueiro cristão deve ter cuidado para não se envolver em polêmicas vazias, denúncias sem propósitos, fofocas, intrigas e discussões áridas (Ef. 5.4).
14.    O blogueiro cristão deve ter o discernimento de não tratar certos assuntos na internet. O blog nem sempre será o lugar mais apropriado para se tratar de assuntos mais espinhosos ou complexos da fé cristã. Não é lugar também para a exposição de dilemas e crises de fé (esse lugar é a oração e a comunhão com os santos, na Igreja). É preciso ter sensibilidade com o leitor que não domina certas matérias e com a possibilidade de causar tropeço aos novos na fé.
15.    O escritor de blog deve ser alguém que lê bons livros teológicos e que está bem informado das tendências e pensamentos teológicos de sua própria época. Charles Spurgeon, o grande pregador britânico do século XIX, ao falar sobre a importância dos livros disse o seguinte:

 Paulo foi inspirado pelo Espírito, mas, ainda assim, quer livros! Ele esteve pregando por pelo menos 30 anos, mas, ainda assim, quer livros! Ele viu o Senhor, mas, ainda assim, quer livros! Ele foi arrebatado ao terceiro céu, e ouviu coisas que eram proibidas ao homem pronunciar, mas, ainda assim, quer livros! Ele escreveu a maior parte do Novo Testamento, mas, ainda assim, quer livros! O apóstolo disse a Timóteo e da mesma forma diz a todos os pregadores: ‘Aplica-te à leitura!`.

O homem que nunca lê, jamais será lido; aquele que nunca cita, jamais será citado. Aquele que nunca usa os pensamentos do cérebro de outros homens,  prova que ele mesmo não tem cérebro. Irmãos, aquilo que é aplicável aos ministros também é verdade a todo o nosso povo. Você precisa ler. Renuncie o máximo possível todo tipo de leitura artificial, mas estude o máximo possível as sólidas obras teológicas, especialmente os escritores puritanos, e comentários da Bíblia. Estou completamente persuadido de que a melhor forma de você gastar o seu tempo de lazer é lendo e orando. Assim, você será capaz de extrair muitas informações dos livros, as quais depois poderão ser usadas como verdadeiras armas a serviço de seu Senhor e Mestre. Paulo clama: ‘Traga os livros`. Junte-se a ele nesse clamor.18
O blogueiro cristão deve estar debaixo da convicção de que realmente tem algo importante a dizer, de que tem um conselho bom a dar, de que tem uma direção segura para apontar, de que sua palavra será relevante e útil para a edificação da Igreja e glória do Pai.

Que o Senhor nos ajude a fazer teologia com responsabilidade e a usar com sabedoria os meios que temos à nossa disposição para disseminar as imutáveis verdades do santo evangelho de Jesus Cristo.

Tiago Santos
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1Este ensaio foi originalmente publicado em Blogs Evangélicos; O Impacto da Mensagem Cristã na Internet. 1a. Edição., organizado por Valmir Nascimento. Visão Cristocêntrica: Campina Grande [PB], 2013.
2Internet World Stats. Disponível em: http://www.internetworldstats.com/stats.htm. Dados de 2011, Acessado em setembro de 2012.
3 Ibid: http://www.internetworldstats.com/south.htm
O pós-modernismo é uma maneira de ver o mundo – mas um mundo fragmentado; é uma “categoria espiritual”, conforme definiu Umberto Eco. No mundo pós-moderno, a verdade não é objetiva; não pode ser conhecida – antes, é uma construção que pode variar de acordo com uma série de fatores; não se fala mais em metanarrativa, mas em “uma história dentro de uma história, dentro de uma história”, num ciclo sem fim, desconstruindo a noção de uma narrativa mestra – algo que é tão fundamental para a teologia cristã. Um teórico do pós-modernismo o sintetiza da seguinte maneira: “desreferencialização do real, desmaterialização da economia, desestetização da arte, desconstrução da filosofia, despolitização da sociedade, dessubstancialização do sujeito”. Enfim, devo dizer que a própria tentativa de se definir o pós-modernismo não é nada pós-moderno.
Umberto Eco, 1932, é escritor, filósofo, linguista e bibliófilo italiano; é professor, tendo ensinado em instituições como Yale, na Universidade Columbia, em Harvard, Collège de France e Universidade de Toronto.
6 Para dois bons guias de estudo a esta famosa obra de ficção, cf. Teresa Cristina dos Santos, “Para desvendar o Nome da Rosa”, Lumen: Revista de estudos e comunicação, São Paulo, v. 2, n. 5, p. 103-117, dez. 1996, e José Américo Motta Pessanha, “Filosofia e teologia numa epopeia policial da Idade Média O Nome da Rosa de Umberto Eco”. Comunicações do ISER, Rio de Janeiro, v. 4, n. 13, p. 8-21, mar. 1985
7 Umberto Eco, O Nome da Rosa (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, RJ, 1985) p.55
8 Mortimer Adler e Chalres V. Doren, Como ler livros (É Realizações: São Paulo, SP, 2010), p. 341.
9 Umberto Eco, O Nome da Rosa, p. 187.
10 A frase, de autoria incerta, cunhada na Idade Média, aponta para a teologia como sendo o tema de estudo mais importante no surgimento das universidades, servindo de clímax do estudo de todas as demais ciências dotrivium e do quadrivium.
11 Para aprofundamento, recomendo a leitura do livreto: Como devo viver neste mundo, de R. C. Sproul, (São José dos Campos, Editora Fiel, 2012).
12 Devo esta percepção a George Hunsinger, professor do Seminário Teológico de Princeton, em debate no blogFaith and Theology, em http://www.faith-theology.com/2008/12/george-hunsinger-why-t-f-torrance-was.html, acessado em 15 de novembro de 2012.
13 William Baker, Puritan Profiles (Mentor: Ross Shire, Scotland, 1999) p.289-290
14 Richard Baxter, O Pastor Aprovado (PES: São Paulo, SP, 1996) p.100;102
15 Ibid. p. 139
16 Alister MacGrath, A Vida de João Calvino (Cultura Cristã: São Paulo-SP, 2004).
17 John Piper, O legado da Alegria Soberana (Shedd Publicações, São Paulo,SP, 2005.)p 136.
18 Ligon Duncan – citando C. H. Spurgeon [sermão 452, Paul – His cloak and his books (1882)]; Amado Timóteo, ed. Tom Ascol. (Editora Fiel: São José dos Campos, SP, 2005).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Oração é ato político

“A oração é ato político, energia social, bem público. Ela molda a vida da nação muito mais do que a legislação.

O fato de não termos sido  ainda dominados pela anarquia deve-se muito mais à oração do que à polícia. 

É um ato permanente e intricado de patriotismo no sentido mais amplo da palavra -  muito mais preciso, amorosa e protetor do que qualquer patriotismo declarado em slogans. 

A possibilidade de viver na sociedade e o renascimento da esperança se devem à oração e não à prosperidade empresarial ou ao florescimento das artes. 

O ato mais importante para despertar toda saúde e força que há em nossa terra é a oração” [Eugene Peterson. Onde está o seu tesouro. Niterói: Textus, 2005].

Resta saber que tipo de oração é um ato político. Certamente não é a oração congregacional e alienante que tanto vemos em algumas igrejas evangélicas e nas neopentecostais.

Aqueles recitais de magias disfarçadas de oração são muito mais uma forma de escoamento de neuroses e artefatos discursivos que garantem fidelização de uma clientela religiosa.
A oração como ato político não é ensimesmada, não busca prioritariamente o bem-estar individual, não comunga com os valores de uma sociedade de consumo. 

A oração como um ato político é o sermão do monte efervescendo na alma.Recortes de promessas triunfalistas, contidas em alguma parte da bíblia e repetidas como mantras, não podem ser de forma alguma um ato político.

Essas pseudo-orações não passam de fórmulas mágicas, que apenas potencializam o desejo individual de sucesso e poder, sem qualquer ressonância nos aspectos ético-políticos da vida social.

Fonte: Sostenes Lima, no blog dele

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Quem são os eunucos da vez?

eunuco
Hermes C. Fernandes, no Cristianismo Subversivo
Nenhuma classe era tão menosprezada nos tempos bíblicos do que os eunucos. E a razão disso era muito simples: eles não podiam procriar. Fosse por razões orgânicas (costumavam ser castrados), ou por não sentirem-se atraídos pelo sexo oposto. Por conta disso, sofriam preconceito semelhante ao sofrido por mulheres estéreis. Na concepção judaica, a geração de filhos era a garantia da perpetuação da vida. A prole dava continuidade à saga da família. Na ausência destes, não haveria para quem deixar herança, que consistia não apenas em bens materiais, mas também no nome.

A Lei era dura com relação aos eunucos. Eles sequer podiam entrar na congregação do Senhor (Dt.23:1). Neste mesmo capítulo, a Lei também exclui da comunidade israelita os filhos bastardos e os estrangeiros.
Alguns pesquisadores propõem que esta exclusão pretendia apartar da assembleia da cidade os sacerdotes de deuses pagãos, dos quais muitos eram eunucos e bastardos (que por não terem direito a herança, eram entregues para o ofício sacerdotal). Enquanto Israel rejeitava completamente esses indivíduos, outras nações descobriram maneiras de aproveitá-los, envolvendo-os em atividades como o cuidado da rainha e do harém do rei.

A primeira vez que encontramos eunucos em Israel é durante o reinado de Acabe (2 Reis 9:32). Provavelmente cuidavam de Jezabel, mulher extremamente vaidosa e malévola que introduziu vários costumes pagãos em Israel. Vemos também que havia eunucos em Judá nos dias em que Jerusalém caiu nas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia (Jer.29:2). É bem provável que tanto em Israel dos dias de Acabe, quanto em Judá dos dias de Jeremias, os eunucos fossem escravos estrangeiros adotados na corte real.

Quando o rei Ezequias recebeu os embaixadores da Babilônia, mostrando-lhes todos os seus tesouros, Isaías o advertiu dizendo que um dia eles voltariam e levariam seus descendentes para serem eunucos no palácio do rei da Babilônia (Is.39:6-7). Mas Ezequias não percebeu a gravidade e as implicações daquela profecia. Desde que houvesse paz durante seu reinado, tudo bem. Não importava o que o futuro reservasse aos seus descendentes. Ora, se estes fossem castrados, quem herdaria o trono de Judá?

Quando Ciro II, rei da Pérsia, em 537 a.C., invadiu a Babilônia, ele libertou o povo judeu, permitindo que retornassem a Jerusalém. Muitos dos que retornaram a cidade agora eram eunucos. Pela lei do Deuteronômio então seriam destituídos de sua cidadania e, com isso, da participação política e religiosa na cidade. Porém, em Isaías (livro escrito bem antes do cativeiro babilônio) há uma revisão desta regra. O mesmo profeta que anuncia a Ezequias o que aconteceria aos seus filhos ao serem levados cativos para a Babilônia, também diz: “O estrangeiro que por sua própria vontade se uniu ao Senhor, não deve dizer: Javé me excluirá de seu povo. Tampouco deve dizer o eunuco: Não sou mais que uma árvore seca. Porque assim disse o Senhor: Os eunucos que observem meus sábados, que escolhem o que me agrada e são fiéis ao meu pacto, concederei a eles ver gravado seu nome dentro do meu templo e de minha cidade; isso é melhor que ter filhos e filhas! Um nome eterno darei a cada um deles, que nunca se apagará” (Isaías 56:3-6). A partir de Isaías, então, se cria um mecanismo que torna mais flexíveis as leis do Deuteronômio, adaptando-as a uma nova realidade existente na vida social judaica.

Percebemos nitidamente que a graça está por trás desta “adaptação” à realidade. A Lei aponta para um mundo ideal, onde não haja homens incapazes de reproduzir. Porém, a graça lida com as demandas da realidade. A Lei acentua a distância entre o real e o ideal. A graça reverte este fluxo. Em vez de exclusão, inclusão. Em vez de distanciamento, aproximação.

Creio que, como igreja de Cristo, temos muito que aprender com este episódio. O mundo não é o que deveria ser. Há demandas atuais que exigem posicionamento. Devemos apegar-nos às exigências da Lei ou ceder à concessão da graça? Se marcarmos a opção um, então, nossos filhos terão que ser apedrejados em caso de flagrante rebeldia.
Nem mesmo no tempo de Jesus as pessoas sabiam lidar com a questão envolvendo os eunucos. Há conceitos que ainda hoje são difíceis de serem digeridos, principalmente pelos cristãos. Somos inflexíveis como a letra da Lei, esquecendo-nos de que a letra mata, e que somente o Espírito vivifica. Veja como Jesus lidou com o preconceito envolvendo os eunucos de sua época:
“Ele, porém, lhes disse: Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido. Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.” Mateus 19:11-12
Ora, se Jesus estivesse falando de algo simples, aceito pelo senso-comum, não teria dito: “Nem todos podem receber esta palavra…”
Jesus elenca três tipos de eunucos:
• “Eunucos criados pelo homem”. Castrados. Esterilizados intencionalmente. Prática fartamente disseminada na antiguidade. Geralmente castravam-se os filhos de escravos capturados na guerra, para que, ao crescerem pudessem servir nos haréns dos reis sem oferecer qualquer risco.

 • “Eunucos por causa do reino dos céus”. Não castrados. Que optaram pelo celibato para que pudessem servir a Deus no ministério sem distração com esposa e filhos. Paulo, João Batista e o próprio Jesus poderiam ser contados entre esses. Alguns chegaram a se castrar, como no caso de Orígenes, para se livrar da tentação sexual.

 • “Eunucos desde o ventre materno”. São os que nasceram desprovidos de atração sexual pelo sexo oposto ou são hermafroditas. Muitos, por conta da pressão social para que tenham vida sexual ativa, acabam desenvolvendo atração por pessoas do mesmo sexo. Tais indivíduos possuem libido, porém esta é direcionada para outras atividades além do sexo. Geralmente, atividades ligadas à estética, às artes, que requerem certo grau de sensibilidade. Embora eu os tenha deixado por último em minha exposição, Jesus os coloca encabeçando a lista dos eunucos.

Em outras palavras, uns são eunucos por imposição social, outros por razões psicológicas ou fisiológicas, e outros por decisão própria, geralmente motivados por idealismo.
O que faremos a esses indivíduos? Que rótulo lhes daremos? Qual será nossa sentença? Tomaremos Deuteronômio ou Isaías como base? E o que faremos com o que Jesus disse acerca deles? Será que estamos entre os que Jesus denunciou como não estando preparados para recebê-los?
Não foi à toa que Filipe foi o discípulo escolhido por Deus para introduzir o Evangelho ao eunuco etíope. Logo no início de sua caminhada cristã, ele testemunhou a maneira como Jesus lidava com os preconceitos humanos. O mesmo Natanael que comentara com Filipe que da região procedência de Jesus não poderia vir nada que prestasse, ouviu dos lábios do Mestre: Este sim é um verdadeiro israelita! Com este elogio, Jesus interrompeu o ciclo do preconceito. Em vez de rebater, Ele preferiu elogiar. Imagino a cara de Natanael diante de Filipe. O que este não podia supor era que aquela experiência o habilitaria para mais tarde ser tirado do meio das multidões em Samaria para pregar a um eunuco (que ainda por cima era negro!) no caminho de Gaza (At.8:27-39).

Filipe não perde tempo apontando as eventuais falhas morais do eunuco. Em vez disso, fala-lhe de Cristo, tomando como base um trecho do mesmo livro que diz que Deus receberia eunucos e lhes daria um nome eterno. Convencido da disposição divina em recebê-lo como filho, o eunuco diz: “Eis a água, o que me impede de ser batizado?” Se fosse hoje, influenciado por pregadores modernos, talvez Filipe dissesse: Bem, acho que você precisaria tomar um banho de loja primeiro. Trocar essas roupas espalhafatosas por um terno e gravata. Mudar esses trejeitos efeminados. Arrumar uma namorada para comprovar que foi curado. E depois de batizado, gravar um DVD de testemunho para a gente divulgar. Se um eunuco me fizesse a mesma pergunta hoje (o que me impede de ser batizado?), eu responderia: o preconceito. Daí, ele procuraria outro eunuco para evangelizar, conduzia-o a Cristo e abria uma igreja de eunucos.

É… Jesus tinha razão. Não estávamos preparados à época, e provavelmente, muito menos hoje. Chegamos a Gaza, mas nos recusamos a aproximar-nos da carruagem em movimento. Talvez por amá-los na mesma proporção de que amamos os bandidos… Dizemos amá-los, mas optamos por manter distância. E assim, preferimos a inflexibilidade da Lei ao Espírito da Graça. E é justamente a Lei que nos oferece a chave com a qual trancamos o armário no qual muitos se escondem (alguns dos quais exercem cargos eclesiásticos, usando o púlpito como armário). Somente um ambiente impregnado de graça oferecerá acolhimento e compaixão. Afinal, somos todos humanos, desesperadamente carentes desta graça capaz de fazer-nos renunciar às próprias paixões e concupiscências (Tt.2:11-12). Graça que, igualmente, nos capacita a vencer nossos preconceitos e medos.

Respondendo à pergunta proposta no título deste post. O eunuco da vez é todo aquele que desprezamos, do qual queremos distância. Pelo menos assim, não seremos obrigados a amá-los, já que esta obrigação só diz respeito ao próximo… só que não!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A falta que a Igreja Primitiva faz!

Foto de flickr.com/alaninabox
●A Igreja Primitiva fazia muito com pouco; A Igreja Atual com muito não faz quase nada.
● A Igreja Primitiva tinha comunhão; A Igreja Atual apenas associação. 
● A Igreja Primitiva tinha uma fé capaz de abalar o mundo; A Igreja Atual tem uma fé abalada por qualquer coisinha. 
● A Igreja Primitiva tinha uma mensagem Cristocêntrica (por Ele, para Ele e N´Ele); A Igreja Atual tem uma mensagem Antropocêntrica (mensagens que massageiam os nossos egos, desejos e prioridades). 
● A Igreja Primitiva não se importava com a concorrência; A Igreja Atual perde para a concorrência e faz concorrência entre si mesma. 
● A Igreja Primitiva tinha doutrina; A Igreja Atual, apenas tradições. 
● A Igreja Primitiva tinha membros à imagem de Deus; A Igreja Atual tem membros que são caricaturas de uma denominação. 
● A Igreja Primitiva era procurada pelas pessoas; A Igreja Atual não é procurada e nem procura as pessoas. 
● A Igreja Primitiva era perseguida pelo mundo; A Igreja Atual persegue a si mesma. 
● A Igreja Primitiva se ocupava com o essencial (a vida em Cristo, o caráter cristão, o proceder com o semelhante etc); A Igreja Atual, com o trivial (tamanho do vestido, se usa brinco ou não, se o pregador usa terno e gravata – ao invés de se preocupar com uma vida com Deus e que possui bom caráter). 
● A Igreja Primitiva se interessava pelas pessoas perdidas fora de suas igrejas (como o nome ‘igreja’, no original, em grego, mesmo se traduz); A Igreja Atual se orgulha com o número de seus membros. 
● A Igreja Primitiva tinha culto; A Igreja Atual apenas liturgia ou entretenimento. 
● A Igreja Primitiva crescia em qualidade e quantidade; A Igreja Atual, nem em qualidade. 
● A Igreja Primitiva incomodava o mundo; A Igreja Atual se acomoda ao mundo e por isso é incomodado por ele. 
● A Igreja Primitiva mudou o mundo de sua época; A Igreja Atual tem sido mudada pelo mundo atualmente. 
● A Igreja Primitiva contava com membros que tinham vida de cristãos; A Igreja Atual tem apenas o nome de cristãos. 
● A Igreja Primitiva tinha a maioria de suas atividades fora dos portões da igreja; A Igreja Atual já nem sabe o que está fazendo dentro dos portões da igreja. 
● A Igreja Primitiva era temida pelos demônios; A Igreja Atual teme aos homens. 
● A Igreja Primitiva estava disposta a morrer pelo Evangelho; A Igreja Atual não consegue nem viver o Evangelho. 
● A Igreja Primitiva era uma tradução da Bíblia; A Igreja Atual tem apenas traduções da Bíblia. 
● A Igreja Primitiva transformou a palavra escrita em palavra encarnada!

Certa vez três teólogos discutiam entre si sobre qual era a melhor tradução da Bíblia, até que um deles disse: “A melhor tradução da Bíblia é minha mãe”. Todos se silenciaram, então continuou ele:“Ela traduziu a Bíblia em atitude, em vida, e qualquer analfabeto podia ler e entender”.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

C.S Lewis: Deus, pubs, feiticeiras e armários

Publicado originalmente no Obvious
Autor de uma das mais respeitadas obras-primas da literatura infantil, C.S.Lewis foi um dos escritores mais influentes do século XX. Com mais de 30 livros publicados, o irlandês obteve sucesso internacional com uma reverenciada obra que aborda temas do universo infantil, da teologia e da mitologia, permitindo-lhe atingir um público diverso.
C.S Lewis
C.S Lewis
Não é novidade que os irlandeses são muito bem representados na literatura mundial. Ora vejam lá: Joyce, Wilde, Beckett… Só até aí já é uma excelente desculpa para chegar até o pub mais próximo, levar ao alto uma Guinness e brindar às letras das terras cristãs de São Patrício. Terras tão cristãs que a sua doutrina influenciou não somente a literatura de um homem, como também todo o seu curso em vida. Não se trata de religiosidade, mas sim de um homem cujo espírito era inquieto. Não se trata de fé cega, mas sim de um homem que quis entender essa fé que insistiu em bater-lhe ao peito e cravar-se-lhe na mente. E partilhou suas questões e visões do mundo a partir da rocha doutrinária que um dia apeteceu seu coração. Este é um retrato possível do irlandês C.S. Lewis.

Se os céticos julgam C.S.Lewis pela sua insistência em revirar o cristianismo em suas linhas, culpem outro gênio: J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings). Pois foi ele quem converteu Lewis – seu amigo íntimo – à fé cristã. Os dois se conheceram na University College, em Oxford, e tornaram-se inseparáveis, influenciando um ao outro ao longo de suas vidas.

Há quem muito se incomode com a preferência espiritual de alguns autores. Cá entre nós, isso não tem a menor importância quando se trata da competência literária desses autores. Uma pena, no entanto, que Lewis foi ofuscado por seu querido amigo. E sabia que assim seria ao se arriscar na esfera religiosa, ainda que de maneira abstêmia e serena. No caso de C.S. Lewis, competência é um termo tímido ao referir-se ao legado que nos deixou. Pensamentos, estudos, ensaios e uma rica literatura que trata de forma brilhante as questões mais complexas: as relações do homem com o próximo, com Deus, com a natureza e consigo mesmo.
Um homem inteligente como C.S.Lewis tinha de ter uma imaginação monstruosa. E foi com ela que conseguiu unir dois universos de maneira sutil e inesperada, ao escrever a série As Crônicas de Nárnia (The Chronicles of Narnia) – baseada na doutrina cristã. Não se trata de literatura cristã, mas contém referências bíblicas ao longo de toda a narrativa da terra mágica de Nárnia.

As Crônicas de Nárnia
As histórias são tão sensacionais – não somente pela criatividade do autor, como também pela sua propriedade literária – que renderam a Lewis o título de um dos maiores escritores do século XX. Obtiveram sucesso desde o lançamento do primeiro de sete volumes, em 1950. Da série já se venderam 100 milhões de cópias, em mais de 40 idiomas, ao redor de todo o mundo.
O que chama a atenção em Lewis é a serenidade e seriedade com a qual trata a espiritualidade. Mesmo sendo ávido por entender sua própria fé, e o Deus no qual acreditava, Lewis não usava sua pena para a pregação, mas sim para dialogar acerca de suas particulares impressões e crenças à luz bíblica. E, obviamente, compartilhou seus entendimentos e dúvidas não somente com os cristãos, mas com um público além dos limites do cristianismo.
Dizia que não se pode acreditar em algo que não se conhece; não se pode adorar a um Deus se Dele nada se sabe. Da mesma forma que afirmava ser incoerente criticar e negar a um Deus se, do mesmo modo, nada se sabia sobre Ele. E, desse modo, com o estudo bíblico fundamentou todos os argumentos de uma vida admirável. Sua célebre frase: “Você não tem uma alma. Você é uma alma. Você tem um corpo.” fundamentou sua obstinação por entender sua fé e, assim, cuidar de seu espírito.
Mas sua influência foi além da fronteira religiosa e espiritual, como um notável intelectual da teologia. Dedicou-se à crítica literária e aos estudos acadêmicos, ocupando a cadeira de Literatura Medieval e Renascentista na Universidade de Cambridge, com uma respeitável carreira.
Pub frequentado por C.S. Lewis.
Pub frequentado por C.S. Lewis.
Dos livros, a imaginação de Lewis foi parar nos cinemas, com a série As Crônicas de Nárnia, sendo o primeiro volume o fantástico O Leão, o Guarda-Roupa e a Feiticeira. Também para o cinema, em 1993, o ator Anthony Hopkins interpretou C.S.Lewis no longa britânico Shadowlands.

Suas obras continuam a atingir um vasto público. Seus principais escritos incluem Fora do Planeta Silencioso, Os Quatro Amores, As Cartas do Inferno, e Cristianismo Puro e Simples.

Placa num banco de jardim em Bangor.
Placa num banco de jardim em Bangor.
Lewis morreu em novembro de 1963. Seu túmulo está no pátio da Igreja da Santíssima Trindade, em Headington Quarry, Oxford. Em seu túmulo está escrito: “Os homens devem suportar as partidas”.
C.S.Lewis passou de um convicto ateu a um dos escritores cristãos mais influentes do século XX. Enfrentava suas próprias guerras espirituais com distinta coragem, desafiou uma fé que excede toda a compreensão, foi generoso com seu conhecimento, partilhando-o num legado de sabedoria. E, mais espetacular, frequentava pubs ao lado de Tolkien. Foi, de fato, uma bela caminhada: “Eu pensava que nós seguíamos caminhos já feitos, mas parece que não os há. O nosso ir faz o caminho.” (C.S.Lewis)
Estátua de C.S. Lewis em Belfast.


sábado, 12 de janeiro de 2013

Pálido de espanto


José Inácio Werneck, no Direto da Redação
Há algum tempo conversei com um amigo, que me disse ser  ateu. Não acredita em Deus e ponto final.
- E você? Você acredita em Deus? – perguntou-me, com um ar de quem suspeitava que eu fosse um papa-missas.
Quisera eu  que minha resposta pudesse ser simples. Não creio no Deus que conhecemos apenas de ler a Bíblia, no Deus que disse “faça-se a luz”, que criou Adão e de sua costela tirou Eva.
Surpreendo-me mesmo que, nos dias atuais, possa haver fundamentalistas, de qualquer religião, que confiam cegamente no que foi escrito ou transmitido por tradição oral, por homens que um dia supuseram que ouviram ou viram um Deus que lhes falava   de dentro de uma moita em chamas ou lhes entregava mandamentos no topo de uma montanha.
Tais convicções infelizmente tem trazido imensa miséria à humanidade, dividida por ódios inconciliáveis em nome de um Deus que supostamente seria a fonte de toda a bondade e sabedoria.
Mas acho simples demais acreditar que existe apenas o mundo natural, aquele que vemos diante de nossos olhos. Pois afinal – e aqui parafraseio uma  passagem do apóstolo Paulo na Epístola aos Coríntios – vemos indistintamente, diante de  uma vasteza que nossa visão não alcança.
O que vemos do Universo é apenas uma ínfima parcela. Mas dia a dia aprendemos mais coisas, descortinamos mais coisas. Um dia talvez cheguemos à compreensão total.
O homem percebe o Universo através de quatro dimensões – a altura, a largura, a profundidade e o tempo – mas as teorias científicas nos falam de outras dimensões que não distinguimos, embora existam.
Sabemos que o Universo surgiu há 13,75 bilhões de anos, a partir de um ponto inacreditavelmente pequeno que os astrônomos chamam uma “singularidade”, mas não sabemos o que havia no momento do Big Bang, nem o que havia antes do Big Bang.
A imensidão que nos rodeia está repleta de fascinantes fenômenos, de buracos negros, pontos dos quais nem a luz pode escapar,  que conteriam “buracos de traça”, passagens que  nos transportariam a  pontos diferentes dentro de nosso Universo ou de um universo a outro. Um universo ou universos  que poderiam existir paralelamente ao nosso, embora não os vejamos.
Os “buracos de traça” ligam dois pontos no “tempo-espaço”, o que significa que em princípio podem permitir tanto a viagem através do espaço quanto através do tempo.
Uma das  teses mais exóticas, deduzível da Teoria da Relatividade, de Einstein, é que nosso Universo seria o interior de um buraco negro existente dentro de um outro Universo.
Além do que vemos e percebemos, há um amplo terreno para a imaginação.
Talvez ninguém tenha dito melhor do que Shakespeare, no século XVII: “Há mais coisas  no Céu e na Terra, Horácio,  do que sonha a vossa filosofia”.
Só em nosso galáxia, a Via Láctea, haveria pelo menos 17 bilhões de planetas parecidos com a Terra. Estamos falando em uma Galáxia dentro das infindáveis galáxias que existem, dentro de um Universo cujos limites não conhecemos e que pode estar no meio de muitos outros.
É  candura extrema acreditar  nos textos religiosos ao pé da letra, mas é muita falta de curiosidade afirmar que existe apenas a matéria que vemos e sentimos diante de nós.
Não sou papa-missas, mas, como o poeta que ouvia estrelas, sou pálido de espanto.
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