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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Eles são PMs de Cristo. E há 20 anos

Gabriel Bonis, na Carta Capital
O capitão Joel Rocha, da Polícia Militar de São Paulo, discursa sobre religião com a habilidade de um pastor. Suas palavras, cuidadosamente escolhidas, lideram os PMs de Cristo, associação de policiais militares evangélicos que completou em junho 20 anos de atuação dentro da PM paulista. Algo curioso para um ambiente facilmente associado a armas e combate à criminalidade, mas não à atuação religiosa. Há na corporação, entretanto, milhares de evangélicos, muitos deles atuando pela fé. “Enquanto conversamos, provavelmente em alguma reunião de quartel nosso grupo está orando”, diz o presidente da entidade.

E ele o faz com alguma base estatística. Dos cerca de 100 mil policiais do estado de São Paulo, 25 mil se declaram cristãos. Destes, em torno de 2 mil são PMs de Cristo, ou seja, 8% do total. Considerado um “braço amigo da PM”, o grupo age alinhado com a visão laica do comando, garante Rocha. “Temos o apoio incondicional para valorizar a figura humana do policial”, diz. Uma missão que ganha cada vez mais relevância conforme policiais são associados a uma conduta truculenta e casos de mortes de civis causadas por erros.
Para combater essa imagem, os PMs de Cristo reúnem policiais militares e civis voluntários de diversas religiões cristãs evangélicas para estimular nos companheiros características bíblicas de Jesus Cristo, como honestidade e coragem. Assumem também a propagação de valores cristãos à corporação e às pessoas com quem esta se relaciona. Tudo isso, por meio de núcleos espalhados pelo estado e com uma agenda movimentada.
Os frequentes eventos chegam a ter a participação de mil pessoas. Não chega a surpreender que a entidade tenha acabado de ganhar um dia no calendário oficial de São Paulo, graças ao projeto de lei de um deputado estadual. O dia pode ter sido ideia de um político, mas a entidade se apressa para dizer que o grupo é apartidário e com origem distante. Parte da história de Neemias, personagem bíblico que mobilizou as famílias de Israel para a reconstrução dos muros de Jerusalém.
É comum os voluntários realizarem atividades comunitárias nos espaços da Polícia Militar e em diversas igrejas, além de oferecer um serviço de capelania e orientação espiritual para complementar as ações de apoio pessoal da PM. Algo fundamental para o presidente dos PMs de Cristo, pois os policiais vivem em um ambiente onde a margem entre o correto e o ilegal é muito estreita. “Lidamos com valores fortes como a liberdade e o direito à vida. Isso provoca um nível de estresse elevado.”
Justamente o tipo de ambiente que atrai mais religiosos, explica Leonildo Silveira Campos, teólogo e especialista em Antropologia da ReligiãoPara o professor da Universidade Metodista de São Paulo, a religião é um elemento chave em grupos profissionais com clima deincertezas. “Durante as guerras, as Forças Armadas sempre levavam para as trincheiras capelães para realizar cultos e missas a fim de fortalecer os soldados na batalha contra oimponderável”, diz. Para ele, em regiões onde a atuação policial é mais perigosa, como Rio de Janeiro e São Paulo, é possível que a ação até traga certo benefício psicológico.  
E esse é um dos objetivos do grupo, incluindo a atuação com policiais que cometeram erros durante o trabalho. “O erro neste serviço pode implicar tanto em uma suspensão, quanto na morte de inocentes. Isso traz muita pressão.” Para isso, afirma, a religião seria uma forma de harmonizar sentimentos conflitantes e recuperar PMs e presos com o vislumbre de um futuro a ser construído. A religião também controlaria o uso da força, diz Rocha. “O policial não deve sentir prazer na morte de ninguém.”
A atuação do grupo vai além dos cultos em quarteis. O trabalho começa quando o PM entra na corporação e recebe a orientação da entidade, que acompanha seu caminho. Quem se filia ganha a Bíblia dos PMs de Cristo. Um livro customizado com o logo da corporação. “É uma lembrança da responsabilidade, de orar e defender a corporação”, diz Rocha. “O policial gosta de carregar um chaveiro ou uma marca que lembre a instituição, valoriza os símbolos e insígnias.” Por isso, o Pão Diário, livro com mensagens diárias sobre vida e família, também foi customizado.
Esse desejo por símbolos e valores próprios pode ser visto no crescimento da proporção de evangélicos no Brasil. Dados recentes do Censo do IBGE de 2010 mostram que essa faixa da população soma 42,3 milhões de pessoas (22,2% da população), contra os 64,6% de católicos, em queda há décadas. Um aumento que também reflete na composição dos quadros das instituições, como a própria PM. “A convicção espiritual coopera para que alguém tenha uma visão pessoal sobre Deus, mas não estamos preocupados com os cargos que cada cristão está ocupando”, ressalta Rocha. Mas completa ser natural o desejo de ser representado por pessoas com os mesmos princípios e valores que os seus.

A mudança no perfil dos integrantes das entidades públicas permitiu que as Forças Armadas passassem a fazer concursos para ser capelões evangélicos e protestantes. Algo sequer imaginado quando a população era hegemonicamente católica, destaca Campos. “O que importa é o modo como a pessoa se relaciona com seus vizinhos. Sua integridade dá respaldo para compreender pessoas com valores cristãos em locais chaves em um País que carece de uma revitalização moral”, diz Rocha.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Protestantismo a Brasileira


Rodrigo Martins, na Carta Capital

Os evangélicos continuam em forte ascensão no Brasil. Apenas na última década, mais de 16 milhões brasileiros se converteram às mais variadas denominações protestantes. De acordo com dados do Censo de 2010, divulgados recentemente pelo IBGE, os evangélicos somam 42,3 milhões de fiéis, ou 22,2% da população. Trata-se da religião que mais cresce no País, a custa de um constante declínio católico. Os seguidores da Igreja de Roma passaram de 73,6% em 2000 para 64,6% em 2010.

Se mantida a tendência, os evangélicos podem chegar a um terço da população em dez anos. Não é bem o que os pastores mais otimistas previam, mas ainda assim é um grande feito. Há três anos, o Serviço de Evangelização para a América Latina, organização protestante de estudos teológicos conhecida pela sigla Sepal, estimou que a metade dos brasileiros seria evangélica até 2020. Mas o crescimento protestante parece ter atingido o seu ápice nos anos 1990, quando o número de fiéis aumentou 71%. Na década seguinte, a expansão diminuiu o ritmo e ficou em 41%.
O boom evangélico estaria próximo do fim? “Não dá para tratar uma expansão tão acentuada como algo banal ou como a expressão de um enfraquecimento deste segmento religioso”, afirma a socióloga Christina Vital, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser).  “Seria um grande equivoco dizer isso, já que se trata de um crescimento de mais de 40%!”. Em entrevista a CartaCapital, a especialista avalia o fenômeno da explosão numérica dos fiéis e as suas consequências para a sociedade.
CartaCapital: O boom evangélico está próximo do fim?
Christina Vital: Parte das análises sobre os dados de religião do Censo 2010 nos conduzem para uma conclusão: o crescimento evangélico atingiu o seu auge. Estas análises privilegiam a perspectiva do “copo vazio”. Logo, acentuariam a desaceleração do crescimento evangélico em detrimento de buscarem entender o que significa um crescimento de mais de 40% de um segmento religioso. Entendo que as análises do tipo “copo vazio” estão referidas a expectativas vindas do próprio campo evangélico e também anunciadas por estudiosos da religião no Brasil que anunciavam um crescimento mais expressivo.
CC: O que explica o boom dos anos 1990?
O aumento de décadas passadas estava referido a um contexto de mudanças na sociedade ao longo da década de 1980 e que se refletiria no Censo de 1990: êxodo rural (os evangélicos são mais presentes no meio urbano) e a forte rede de solidariedade que os evangélicos oferecem para estes que estão, muitas vezes, longe da família. Também o crescimento dos evangélicos no espaço público seja através da política, seja através da presença na mídia televisiva, além da nova perspectiva cristã que o surgimento dos neopentecostais ofereceu para os que já estavam acostumados com a mensagem bíblica nas igrejas evangélicas históricas, nas pentecostais mais tradicionais ou mesmo no catolicismo.
CC: O movimento neopentecostal foi o grande protagonista da explosão numérica dos evangélicos?
CV: A partir, sobretudo, de meados da década de 1990, uma série de embates começam a emergir no campo religioso brasileiro. O elemento central das várias controvérsias em curso foi o segmento neopentecostal. Estas controvérsias atingiram também, em termos de imagem pública, os pentecostais de modo geral. Mas, com todas as polêmicas e críticas em torno das doutrinas e rituais evangélicos, eles continuaram em crescimento. Assim, eram 3,4% em 1950; 4% em 1960; 5,2% em 1970, 6,6% em 1980, 9% em 1990; 15,5% em 2000 e agora atingiram 22% da população nacional. Para além de pensar no crescimento percentual que é expressivo, saliento, vale uma reflexão sobre o papel que este segmento religioso tem em nossa cultura.
CC: Quais são as principais contribuições?
CV: O Brasil que tem sua identidade social e cultural amplamente atravessada pelo cristianismo católico. Das últimas décadas para cá, vem sendo afetado pela cultura evangélica seja através do mercado gospel, seja através da articulação de uma gramática tão singularmente acionada pelos seus fiéis. Sendo assim, é comum escutarmos expressões como “só Jesus”; “fulano é um abençoado”, “o sangue de Jesus tem poder”, “tá amarrado”, entre outras. No País, falou-se sempre de uma religiosidade católica difusa que envolvia uma crença compartilhada em certos valores professados pela igreja católica e em um certo repertório sagrado que tinha a ver com a não prática da religião, mas na crença em alguns de seus sacramentos e na força de alguns de seus santos. Mais recentemente observa-se uma religiosidade evangélica difusa, sobretudo no meio popular, mas que se espraia, paulatinamente, para toda a nossa sociedade.
CC: Trata-se de um fenômeno cultural?
CV: Sim, e o meio artístico tem sido importante para isto. Há duplas sertanejas e grupos de pagode que cantam canções evangélicas ou fazem menções a elas. Existem grupos de rap e de funk que articulam a gramática evangélica através de expressões e de acionamento de imagens e situações comumente articuladas pelas lideranças evangélicas em seus cultos seja nas igrejas, nas prisões ou entre traficantes nas favelas. Sendo assim, não olho para o crescimento de mais de 40% dos evangélicos no Brasil do Censo de 2000 para 2010 como algo banal ou como a expressão de um enfraquecimento deste segmento religioso! Mas esta perspectiva, comso disse inicialmente, está muito informada pelas projeções que marcavam um crescimento maior, sem considerar que em momento anterior a sociedade como um todo passava por muitas transformações em diferentes campos da vida social (econômico, político, cultural) e que o campo religioso foi somente mais um deles a ser grandemente afetado.
CC: A senhora acredita que o Brasil terá maioria evangélica em algum momento?
CV: A força da nossa tradição cultural forjada pela articulação política, social e econômica entre Estado, Igreja Católica e elites rurais nos dificulta pensar numa maioria evangélica que implicasse na formação de uma sociedade ascética. No entanto, chamo atenção para o fato de que a sociedade está em movimento e também o campo religioso que pode promover adaptações que venham a surpreender e resultar num crescimento igualmente surpreendente.

CC: O que explica o elevado percentual de “evangélicos não determinados” do último Censo (4,8% da população brasileira)?
CV: Estes dados podem indicar que o fluxo de entrada e saída de fiéis das denominações evangélicas é muito acentuado. Isto poderia, por seu turno, indicar que tanto os fiéis estão mudando quanto podem estar sendo mais flexíveis as próprias igrejas evangélicas na relação com o seu público alvo. Por outro lado, observamos um crescimento das igrejas históricas renovadas, que seria o movimento pentecostal entre as denominações ditas tradicionais ou históricas. Este crescimento poderia sinalizar, como alguns sociólogos da religião vem defendendo, um modo de viver a fé pentecostal sem se expor à imagem controversa que desfrutam os evangélicos pentecostais. Uma imagem negativa por vezes ligada à intolerância, ao baixo nível educacional, ao enriquecimento ilícito dos líderes religiosos.
CC: Alguns pesquisadores sustentam que a expansão também se deve à flexibilização dos costumes entre os evangélicos.
CV: É fato que as igrejas evangélicas, pela descentralidade que caracteriza este universo, em oposição à Igreja Católica Apostólica Romana, são mais flexíveis. As igrejas evangélicas têm grande capacidade de se adaptarem ao público alvo desta e daquela denominação. Adaptam-se em termos discursivos, doutrinários e ritualísticos ao meio urbano e ao meio rural, às minorias (lembrando que há igrejas evangélicas chamadas inclusivas, isto é, que são dirigidas por gays), etc. No entanto, não vejo esta flexibilidade como uma continuidade em relação a padrões culturais existentes. O mundo evangélico é de acolhimento, de aproximação para a transformação para os padrões morais que professam. Sendo assim, avançam entre grupos que poderiam parecer antagônicos a esta fé, mas o fazem justamente numa perspectiva de cura. Sempre a cura!
CC: Curar os que se desviaram da doutrina cristã?
CV: Esta é uma dimensão importante no imaginário evangélico. E assim avançam entre os rockeiros, funkeiros, traficantes, prostitutas, pagodeiros, mas com uma perspectiva proselitista que visa transformar grupos e pessoas. Em termos políticos, sociais e econômicos este segmento já causou muito impacto e continua causando. Só para tratarmos do primeiro ponto, no cenário político nacional e de alguns estados, o elemento religioso é absolutamente fundamental, decisivo.
CC: Qual é o grau de influência política dos evangélicos?
CV: Vimos como eles tiveram importância nas eleições presidenciais de 2010, na qual assumiram papel de destaque na polêmica em torno do aborto. O tema entrou na agenda política a ser tratada pelos candidatos. Também tiveram papel de destaque na controvérsia em torno do Kit Anti-homofobia para as escolas públicas e do caso Palocci. Enfim, a presença evangélica remexeu tanto o campo político nacional que começamos a assistir nas campanhas para os cargos eletivos nacionais, estaduais e municiais a apresentação da identidade religiosa dos candidatos. A identidade católica, que de tão hegemônica não precisava ser mencionada, passou a ser mencionada. Também a identidade de candidatos espíritas e ligados a religiões de matriz africana. Todos nós assistimos recentemente a formação do que vem sendo chamada de frente parlamentar de terreiros, por exemplo.
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